Entre voltas e reviravoltas, de 17 de novembro a 7 de dezembro de 2025, a 2.ª edição do DJINTIS – Festival Internacional de Artes Cénicas de Bissau celebrou, de forma contagiante, a diversidade e a criatividade, através de uma programação plural dirigida a todos os públicos.
O DJINTIS reuniu 14 países e territórios, distribuídos por 4 continentes – África, Europa, América do Sul e Caraíbas – num total de 35 atividades, com a participação de 134 artistas e 1 438 espetadores e formandos, afirmando o festival como um lugar de encontro e circulação de vozes, corpos e imaginários! Uma plataforma de cooperação artística internacional enraizada no Sul global e aberta ao diálogo intercontinental.
Entre 17 de novembro e 7 de dezembro de 2025, a 2.ª edição do DJINTIS – Festival Internacional de Artes Cénicas de Bissau voltou a abrir espaço ao encontro, à escuta e à criação, celebrando a diversidade das artes cénicas como gesto coletivo de presença e imaginação partilhada.
O festival aconteceu num tempo exigente. Um incidente político atravessou o quotidiano da cidade e obrigando a reajustar ritmos, horários e percursos. Algumas atividades não puderam acontecer como previsto. Ainda assim, o DJINTIS, acompanhado pelos artistas e público, não parou. Adaptou-se ao território, escutou o contexto e seguiu em frente, afirmando a arte como lugar de resistência sensível de cuidado e continuidade.
A 2ª edição, sob o tema Terra-Fogo, enquadrada no projeto “Ur-GENTE, Centro de Formação em Artes Cénicas Transdisciplinar de Bissau”, acolheu uma programação diversa e vibrante que incluiu teatro, dança, cinema, slam poetry, música ao vivo, sessões de contos para crianças, exibição de documentários e workshops formativos. Artistas e companhias, nacionais e internacionais, apresentaram as suas criações a novos públicos e partilharam momentos formativos abertos à comunidade, reafirmando a arte como território de consciência e resistência, que abre e expande novos modos de pensar, sentir e agir.
A programação dividiu-se em cinco espaços de acolhimento em Bissau (Ur-GENTE, Centro de Artes Cénicas Transdisciplinar de Bissau; Centro Cultural Franco Bissau Guineense; Centro Cultural Português; Instituto Guimarães Rosa; e Centro Cultural Netos de Bandim) e um em Quinhamel (Centro de Promoção Humana).
A abertura oficial do Festival, a 18 de novembro, marcou o início desta edição dedicada à Terra-Fogo, com a presença dos representantes da ONGD VIDA, do PNUD, e dos Embaixadores de França e Portugal, enquanto entidades parceiras do festival.
A cerimónia começou com os ritmos quentes e ancestrais do Grupo de Mandjuandadi Amizadi i ka facil, e, após a apresentação oficial da programação, o público foi guiado para o exterior do espaço Ur-GENTE, onde foi inaugurada a instalação “Kalunda – A Serpente Atlântica”, criada por Nuno Tavares e pelo Coletivo Galeria Jovem, invocando o projeto “Rota dos Tambores do Atlântico”. A rua ganhou movimento com a energia vibrante da Academia Fabondi, que trouxe tambores, acrobacias e danças tradicionais, exposição de máscaras, seguida da abertura da exposição “Linguagem da terra, corpo da festa”, de Faustino Gomes.
Prolongando-se ao longo de 20 dias, até 7 de dezembro, a programação, dedicada a diferentes faixas etárias, destacou-se pela sua diversidade de eventos, estéticas, temáticas e naturezas, contando com espetáculos e performances de artistas e companhias internacionais que emocionaram e fizeram o público vibrar.
Destacam-se: A Caminhada dos Elefantes, da Formiga Atómica (Portugal); Dr. Raimundo, do Coletivo Justina (Brasil); Sacralidade e As seis mulheres de Amílcar, da Companhia Raiz di Poilon (Cabo Verde); L’arbre et moi, de Patrick Mohr/Théâtre Spiralle (Senegal/Suiça); Racine des Vies, de Shelly Ohene-Nyako (Gana/Suiça) e Babacar Mané (Senegal); Apeadeiro, de Nuno Cardoso (Portugal); Le Silence des Tabous, da Youle Compagnie (França/República do Congo); Passa-Porte, da Hotel Europa (Portugal); Ritmo da Semente, de Beatriz Teodósio e Patrícia Fonseca (Portugal); e Que nos voix résonnent, de Cybelline de Souza/Théâtre au Compteur (Benim/Suiça).
Para além das criações internacionais, passaram também pelos palcos do DJINTIS, diversas criações nacionais, em coprodução com o Ur-GENTE, num Ciclo de Artistas Emergentes, que contemplaram performances como Kali e a Cabaça, do grupo Ami Ku Nha Sunhu; Akotorbidó, de Ismael Cassamá e Idumo Lopes; Entre Raízes e Passos, de Mariama Sané e Idumo Lopes; e Falas e Falas, de Baldir Baldé e Ismael Cassamá.
Outras sessões incluíram a oficina para crianças “A Caminhada dos Elefantes”, com a Formiga Atómica (Portugal); a Roda de Contos, em parceria com o projeto “Jovens Leitores” (FEC); um Workshop de Criação de Marionetas, com Atchô Express (Guiné-Bissau); e a exibição dos documentários Filhos do Meio – Hip Hop à Margem (parceria com a Câmara Municipal de Almada) e Ursonâncias (Companhia de Música Teatral) que conta a jornada de formação e criação que deu vida ao projeto e espaço Ur-GENTE.
Foram também inúmeros os workshop formativos, abertos a jovens talentos e a todos os curiosos, que permitiram explorar novas linguagens, ferramentas e formas de criação, contado com a participação de 110 formandos: O Ator-Contador, com Patrick Mohr/Théâtre Spiralle (Suiça/Senegal); Arte Viva: Corpo, Dramaturgia e Comunidade e Formação e Criação em Território, com Nuno Cardoso (Portugal); Dramaturgias Emergentes, com Takaiúna (Brasil); Ser Humus/Pulsão Vital, com Angélica Riquelme (Chile); e O Corpo como Dramaturgia, com Cybelline de Souza (Benim/Suiça).
O último dia, 7 de dezembro, condensou a energia, a diversidade e a criatividade transversais à 2ª edição. A tarde começou com a apresentação vibrante do Grupo de Mandjuandadi Netos de Amizade de Cuntum, que encheu o espaço com a força das vozes femininas, o compasso dos tambores e a alegria coletiva desta tradição. O Flashmob “Comment Ça-va” trouxe ao espaço uma atuação coreográfica pensada especialmente para o festival, ocupando o centro do recinto com movimento, ritmo e presença, e criando um momento de cumplicidade artística entre os intérpretes e quem assistia. Antes da atividade final do dia, o público foi ainda brindado com uma Poetry Slam — um momento em que a poesia ganhou corpo e voz para provocar, refletir e conectar.
O Festival DJINTIS 2025 encerrou com o concerto ao vivo da lendária banda Furkuntunda, que trouxe ao palco a sua energia inconfundível, unindo música, dança e consciência social numa apresentação que celebrou as raízes e o futuro da música guineense. O concerto transformou a noite num grande encontro coletivo, onde tradição e modernidade se cruzaram, criando um ambiente de festa, emoção e pertença.
As atividades que não puderam ser concretizadas serão reprogramadas, porque o DJINTIS não se esgota num calendário: é um processo vivo, que insiste, regressa e promete. Em Bissau, mesmo quando o chão treme, a criação permanece.
Um agradecimento profundo e sorridente a todos os que fizeram deste festival uma história com memória e futuro de se querer mais. Mais vale cedo ou tarde do que nunca: iniciou-se assim esta segunda edição e, sob esse karma, já sonha o novembro próximo, acrescentando à Terra e ao Fogo a Água, os amigos, os sonhos e as concretizações. Até breve.
“A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para caminhar.” Eduardo Galeano