Testemunhos

O que diz quem nos conhece
Paula Borges

Jornalista, RDP África

Cristina e a sua filha Clistina, a bebé de um mês que esta mulher tem ao colo, são parte de uma história de pequenas grandes conquistas que se faz num país de longas esperas e cíclicas desilusões. Conheço Cristina no alpendre do centro de Saúde de Varela Ialo, uma tabanka isolada no norte da Guiné-Bissau. Cristina deu à luz numa casa gerida por uma associação de mulheres. Mulheres felupes como ela, que passaram a ter os partos nas Casas das Mães, com acompanhamento especializado e no respeito pela tradição da sua etnia. Longe dos olhares dos homens da comunidade. Elas é que mandam. É sagrado, afirmam com convicção: Omi ka entra! Há outras duas estruturas como esta, uma em Suzana e outra em S. Domingos, construídas com a ajuda da ONG VIDA e o apoio de parceiros.

No final de setembro, quando visitamos, em reportagem para a RDP-África esta zona, os cerca de 200 kms que separam a tabanka de Varela da capital da Guiné-Bissau são muito mais do que isso. Na picada tornada mole pelas fortes chuvas, chegar aqui é um exercício de resistência dos veículos e de quem neles segue. Uma das velhas camionetas que fazem este percurso ficou atolada na lama. Neste cenário, qualquer evacuação médica é um quebra-cabeças, agravado ainda pela escassez de meios. Arranjar uma ambulância, garantir que o condutor está disponível e que o depósito está cheio ainda pode ser a diferença entre viver e morrer. Como testemunhei, uma mulher grávida, mesmo com um barrigão de 9 meses, caminha 5 kms ou mais para chegar ao centro de saúde. Percebe-se a absoluta urgência em apostar nos cuidados primários, na proximidade com os profissionais de saúde e na prevenção.

Desde 2010, a VIDA tem operacionalizado no terreno um projecto da UNICEF de revitalização da Saúde Comunitária. Já formou mais de 700 agentes para promoção de 16 práticas familiares essenciais e acompanhamento na saúde materno-infantil. São homens e mulheres respeitados nas suas tabankas que assumem o compromisso de visitar periodicamente cinquenta agregados. É uma actividade supervisionada e monitorizada mensalmente numa reunião de coordenação onde são apresentados os relatórios, traçados planos de trabalho, revistas matérias, actualizadas as informações e pagos os incentivos.

Estas pequenas verbas reconhecem o empenho mas os agentes de saúde comunitária asseguram-nos que não é por isso que participam. Falam das mortes evitadas e da importância de sensibilizar para melhores hábitos de vida.

Faço as contas, enquanto percorremos as terras de bolanhas verdes, e penso no potencial multiplicador destes Agentes de Saúde Comunitária (ASC) que são ainda sobretudo homens. Começa nas próprias famílias, alarga-se aos parentes, aos vizinhos e às outras que acompanham. Em média, ao todo, mais de 350 pessoas cada um. A Guiné-Bissau é um dos países onde as mulheres mais morrem no parto. Na área sanitária de Cacheu, a que pertencem as tabankas por onde andámos, as taxas têm vindo a descer. É fruto, certamente, deste trabalho e de uma alteração de comportamentos que se faz devagar mas também das melhorias introduzidas nos centros de saúde, ao longo das últimas décadas, num trabalho articulado com a Direcção Regional e o Ministério da Saúde e de que o Centro Materno-Infantil de S. Domingos é um exemplo, em projectos financiados por um ou vários parceiros. Casos da UNICEF, da União Europeia, da Cooperação Portuguesa, da Fundação Calouste Gulbenkian.

O Sistema de Mutualidades de Saúde, uma espécie de seguro através do qual as famílias pagam, todos os meses, uma quantia para garantir assistência e medicamentos quando precisam, também está a avançar. Com resistências mas com firmeza. Em todos os projectos, os homens e mulheres guineenses são actores do seu presente e do seu futuro e na equipa, curta mas muito dedicada e profissional da VIDA, encontram parceiros que os respeitam e envolvem. E agora, nesta aventura de um novo projecto de saúde comunitária em Bissau, com mais de mil ASC, que desafios e surpresas surgirão?

João Cunha

Jornalista, Rádio Renascença

Este ano, em Julho, regressei à Guiné-Bissau. Dezoito anos depois de ter feito a cobertura de um dos episódios conturbados da história daquele país: um golpe de estado liderado por Ansumane Mané. Desta vez foi para dar a conhecer o trabalho da Associação VIDA – Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento Africano. E o que me saltou logo à vista foi a forma como esta ONG trabalha no terreno. Não fazem o voluntariado “toca e foge”, que sei existir. Como aquele que se resume a deixar à porta de um centro de saúde em Jufunco uma moto-ambulância, de caixa fechada para transporte de doentes. De rotativo vermelho no topo e tudo. Quem ali a deixou não faz a mínima ideia que as estradas de acesso a Jufunco são difíceis, mais do que as tradicionais “quebra-molas”. Não faz a mínima ideia que, se porventura fosse necessário proceder ao transporte de um doente para o hospital mais próximo, não seria certamente através daquela motoreta, mais parecida com um “tuk-tuk”. E assim sendo, ela, a moto-ambulância, lá continua, parada à porta desse centro de saúde, de onde creio nunca ter saído.

“Não lhe dês o peixe, ensina-o a pescar” é um conhecido provérbio chinês que, creio, pode resumir o trabalho feito pela VIDA. É em conjunto com a população alvo do seu trabalho que decidem o que é premente, o que faz falta, o que pode ser melhorado, sempre a pensar no bem da comunidade. E foi a partir daí que nasceram projectos na área da agricultura e da saúde materno infantil, o projecto das mutualidades e o dos furos de água.

Numa região onde predomina a etnia felupe, com as suas tradições e crenças, não foi certamente fácil ajudar, por exemplo, a melhor produzir tomate ou arroz. Não foi fácil conseguir que os régulos de determinadas tabancas aceitassem que as mulheres grávidas deviam ter os filhos em condições de saúde mínimas, e não nas casas tradicionais criadas para o efeito. Não terá sido também simples implementar um seguro de saúde comunitário, nem fazer assentar a mensagem de que, mesmo quem não está doente tem de contribuir: um dia poderão ser eles a precisar. E se não forem eles, será um vizinho ou um conhecido. Certo é que conseguiram. A favor da VIDA está o facto de estarem na Guiné-Bissau há mais de 20 anos. “São quase da família”, como me dizia Paula Sambu, uma líder das mulheres de Suzana, quando questionada – a meio de uma aula de produção de pickles, ministrada na Missão Católica de Suzana – sobre a forma como encaram a presença, por exemplo, do Pedro, do Ambona, do Olálio, da Patrícia ou do Edson. E tive o privilégio de poder constatar, nas manhãs de trabalho em Suzana, Varela, Jufunco e até na distante Bulol que, de facto, é como se de família se tratasse. Eu sei. Costuma dizer-se que família não se escolhe. Ainda bem para quem, na região noroeste da Guiné-Bissau, olha para a Associação VIDA como se de família se tratasse.

Rui Mortar

Ex-diretor e professor Escola Básica de Ncassani, Moçambique

Pe. Giuseppe Fumagalli

Missão Católica de Suzana, Guiné-Bissau